quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Os Meus Cinco Filmes Favoritos de 2018

O ano começou e decidi escrever algo que era suposto ter escrito no início do ano anterior mas acabei por não fazer por pura preguiça: os meus filmes favoritos do ano. No início de 2018 era para ter escrito uma lista dos filmes que eu mais gostei de ver no cinema em 2017; logo à primeira só me lembro de três filmes: Lego Batman: O Filme, Silêncio de Martin Scorcese e A Odisseia (um biópico sobre a vida de Jacques Costeau) A lista que faço agora contém os filmes que mais gostei de ver no cinema este ano, independentemente de serem filmes feitos este ano, no ano passado ou à dez anos, e os que foram exibidos em festivais também contam. A selecção baseia-se em quais foram aqueles que me deixaram mais satisfeitos ao sair da sala, contente com o produto final. A lista está organizada por ordem cronológica.
Eis a minha lista.

Coco
Eu literalmente acrescentei este filme na lista à última da hora, pois lembrei-me que vi este filme logo no dia 1 de Janeiro, julgando este tempo todo que eu o tinha visto no ano passado. Para mim este é o melhor filme da Pixar desde Toy Story 3, também do mesmo realizador, Lee Unkrich. Elenco excelente, direcção artística fenomenal, a história sólida, mesmo com clichés, é um filme fantástico que valeu a pena esperar. O filme foi concebido por Unkrich em 2010, logo após a estreia de Toy Story 3 e foi revelado pouco tempo depois. Coco foi também vítima de decisões terríveis feitas pela Disney, tais como registar direitos de autor para o nome "Dia dos Mortos", o feriado que serviu de inspiração para o filme, uma acção que foi extremamente criticada pela comunidade mexicana nos Estados Unidos. Outra acção da Disney que foi também criticada foi a de colocar A Aventura de Olaf, uma curta-metragem com personagens do filme Frozen antes do filme; imensos pais criticaram esta decisão, o que levou a vários cinemas remover a curta-metragem. Eu felizmente vi o filme sem o filme do Olaf. A última coisa que queria ver num filme da Pixar era os personagens irritantes do Frozen.

Três Cartazes à Beira da Estrada
Frances McDormand in Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)
Uma enorme surpresa que foi este filme. Fui ver o "Três Cartazes" num sábado, depois de uma semana de trabalho frustrante e cansativo. A história de uma mãe (Frances McDormand) que coloca cartazes a criticar a polícia da cidade de Ebbing, no estado do Missouri, por terem desistido da investigação do assassinato da sua filha. O trailer faz este filme parecer uma comédia negra ao estilo dos Irmãos Coen (que, coincidência ou não, Frances McDormand é casada com um dos irmãos e faz o papel principal em um dos seus filmes mais famosos, Fargo, recebendo dois Óscares de Melhor Actriz com os dois filmes) mas o filme acaba por ser mais deprimente do que cómico porque os polícias, apesar da sua negligência no caso da morte da rapariga, são também figuras trágicas. O chefe da polícia, (Woody Harrelson), vive os últimos dias da sua vida devido a um cancro, enquanto o seu colega (Sam Rockwell, a desempenhar um papel cinco estrelas), um agente xenófobo e violento, vive sozinho com a sua mãe, sem amigos para conviver. O personagem de Sam Rockwell é o que torna este filme numa obra-prima contemporânea.
Ah sim, e Peter Dinklage, o actor anão de A Guerra dos Tronos, aparece neste filme, para completar este elenco de luxo. Este seria o meu filme favorito da corrida aos Óscares deste ano se não fosse o filme seguinte.

Linha Fantasma
Daniel Day-Lewis and Vicky Krieps in Phantom Thread (2017)
O filme mais recente de Paul Thomas Anderson e o último filme de Daniel Day-Lewis, que retirou-se da carreira de actor antes da estreia deste maravilhoso filme sobre um designer de alta-costura de Londres dos Anos 50, que se apaixona por uma empregada de uma estalagem no campo. Linha Fantasma é estilo e substância misturadas de forma homogénea, desde a direcção de fotografia pitoresca dos cenários campestres e do centro de Londres, e a excelente banda sonora de Jonny Greenwood, até ao desempenho do elenco, ambições dos personagens e o argumento que chega a ter momentos bastante imprevisíveis. O meu filme favorito da corrida aos Óscares, que infelizmente levou apenas uma estatueta para casa na categoria de Melhor Guarda-Roupa; Gary Oldman fez um papel engraçado como Churchill em A Hora Mais Negra, mas Day-Lewis merecia o prémio de Melhor Actor pelo papel de Reynolds Woodcock (sim, é como se chama o personagem), Jonny Greenwood merecia o prémio de Melhor Banda Sonora e PT Anderson merecia o de Melhor Realizador/Filme, pois foi ele próprio quem trabalhou meticulosamente na cinematografia deste filmaço. Mas pronto, Guilhermo del Toro ganhou as duas estatuetas e ele bem mereceu. Falemos sobre A Forma da Água mais à frente.

A Morte de Estaline
The Death of Stalin (2017)
Uma produção da Gaumont e de várias produtoras europeias, este filme de humor negro é baseado na BD do mesmo nome, editada pela Dargaud. Um elenco de luxo que inclui Steve Buschemi, Michael Palin, Olga Kurylenko, Jeffrey Tambor, entre outros excelentes actores, todos eles a representar figuras históricas, todos eles envolvidos no caso da morte do líder da União Soviética em 1953. Momentos cómicos, momentos inesperados, o filme é divertido, não preciso de dizer muito mais, vejam e agradeçam-me de pois. Como era de esperar, A Morte de Estaline foi banido na Rússia, como também foi banido no Cazaquistão e no Quirguistão.

Roma
Marina de Tavira, Marco Graf, Yalitza Aparicio, Daniela Demesa, Diego Cortina Autrey, and Carlos Peralta in Roma (2018)
Este filme, produção da Netflix, não merece ser visto numa televisão, muito menos num tablet ou telemóvel, pois perde-se a experiência toda nesses dispositivos, e David Lynch concorda comigo, Eu tive sorte em ver Roma no Festival de Cinema de Sintra e Lisboa deste ano, no Centro Cultural Olga Cadaval, em um dos seus dois auditórios com um sistema de som fantástico e ecrã gigante; o filme mais recente de Alfonso Cuarón - realizador mexicano responsável por filmes como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Gravidade e, na minha opinião, um dos melhores filmes da década de 2000, Os Filhos do Homem - conta a vida de uma empregada, Cleo, que trabalha para uma família numerosa de classe média-alta no distrito de Roma, nos arredores da Cidade do México, numa narrativa que decorre no espaço de um ano, entre 1970 e 1971.
Roma é um filme semiautobiográfico, Cuarón afirma, pois Cleo foi inspirada na vida de uma criada que viveu com a família do realizador na altura em que este era miúdo. Para além disso, certos momentos-chave do filme acontecem dentro de cinemas onde filmes da época são exibidos, tal como Perdidos no Espaço, com Gregory Peck, que serviu de inspiração para o filme anterior de Cuarón, Gravidade.
O filme foi filmado a preto e branco, e presumo que foi feito dessa maneira mais por motivo de substância do que de estilo; não só o preto e branco emana o factor nostálgico (como fotografias de viagem, só que a preto e branco em vez de tons de sépia), como também revela que a cor é desnecessária no que toca a exprimir emoções e mostrar o lado mais emotivo e brutal do filme; comparo esse aspecto com o filme fenomenal de Sergei Eisenstein, O Couraçado Potemkine, onde o lado visceral da violência do filme é de tal maneira chocante que, se colorissem o filme (como o que Ted Turner tentou fazer a diversos clássicos como O Mundo a Seus Pés), o efeito seria o oposto, as cores tornam-se resíduos que estragam o filme. A direcção de fotografia espectacular de Cuarón é o único elemento que ele precisa para contar a história, pois a câmara comporta-se como um personagem no meio da acção, seguindo os passos da protagonista pelas ruas de Roma, nas praias de Tuxpan e por aí fora, em cenários genuínos e sem cortes de edição, apenas sequências longas para deixar o espectador mais focado na figura principal, Cleo, que passa por tudo e mais alguma coisa neste filme.
Ah sim, e para quem tem interesse em ver o filme, aviso-vos já, este filme é Forte. Não é apenas forte com "f" minúsculo, é "Forte". Este foi sem dúvida, o filme mais comovente que vi desde Amor Cão, a obra-prima de Alejandro G. Iñarritu, amigo de longa data de Cuarón e um dos "Three Amigos" do cinema. Roma deixou-me de tal maneira deprimido que saí do cinema quando o filme acabou e fui direito a um café e pedi uma fatia de bolo para me reconfortar. Filmes que me deixam destroçados são raros, e Roma merece todas as boas críticas que tem recebido. Na minha opinião, o vencedor do Prémio da Academia de Melhor Filme Estrangeiro, sem sombra de dúvida.


Menções Honrosas
  • A Forma da Água: eu gostava de colocar este filme na lista dos cinco favoritos, e até certo ponto estava incluído, até me lembrar que vi o Coco este ano. Para ser sincero este filme não é o melhor trabalho de Guilhermo del Toro, mas não é mau de todo. Sexo com homens-peixe à parte, o filme tem uma atmosfera rica, com o seu estilo vintage e tons esverdeados, achei o elenco bom, a história engraçada... É um filme bom, não há dúvida, mas não é, na minha opinião, o mais forte entre os concorrentes para Melhor Filme nos Óscares do ano passado. O que vale é que del Toro recebeu o Óscar de Melhor Realizador e de Melhor Filme, estatuetas que o homem mereceu. Agora os "Three Amigos" têm ao todo nove estatuetas: dois de del Toro, dois de Cuarón e cinco de Iñarritu.
  • Ready Player One - Jogador 1: este aqui tem defeitos, imensos defeitos, e também não é um filme feito para toda a gente. Eu sei disso pois um casal de velhos foi ver o filme na mesma sessão que a minha e saíram da sala passados vinte minutos. Mas vou ter que ser sincero, o filme até é divertido. Não só pelo lado nostálgico ao ver O Gigante de Ferro a lutar contra Mechagodzilla ou o Alan Silvestri a tocar (basicamente) remixes da banda sonora do Regresso ao Futuro, mas também porque a história em si é interessante, e é o tipo de filme que Steven Spielberg gosta de realizar. Sendo o primeiro filme de ficção científica de Spielberg em anos, eu estava com imenso interesse em vê-lo.
  • Os Incríveis 2: esperei quase quatorze anos para ver este filme. Adoro a história, adoro os personagens, adoro a banda sonora, adoro a direcção artística, adoro a acção, adoro Brad Bird quando realiza filmes animados. Porque é que este não está na lista dos cinco favoritos? Este filme deixou-me esfomeado por mais Incríveis, pois este universo criado por Brad Bird é que merece ter sequelas; em vez de a Pixar fazer sequelas desnecessárias para filmes que já são perfeitos, porque é que não pediram a Bird para escrever a sequela logo depois de ter realizado Ratatui? Infelizmente, considerando o tempo que Brad Bird demorou a escrever e realizar a sequela, não devemos ter um Incríveis 3 num futuro próximo. Pode parecer uma razão absurda para não estar no Top 5, mas Os Incríveis 2 deixou um vazio em mim, faltava qualquer coisa para me deixar satisfeito.
  • Homem-Aranha - No Universo Aranha: é um filme com personalidade, com estilo e com substância, algo muito raro nos filmes animados de hoje. Aliás, tem muito mais personalidade do que os filmes de super-heróis que a Marvel e a DC têm regurgitado nesta década. Eu fiquei farto dos filmes de super-heróis depois de ter visto Os Vingadores e O Cavaleiro das Trevas Renasce, no ano longínquo de 2012. Desde então, só tenho visto apenas dois filmes do género: Lego Batman: O Filme e Homem-Aranha - No Universo Aranha, e digo-vos que, nas mãos certas, filmes animados de super-heróis são muito mais interessantes. Digo "nas mãos certas" pois Phil Lord e Chris Miller (Clone High, Chovem Almôndegas, O Filme Lego) foram a escolha perfeita como produtores, e no caso de Lord, argumentista. Eles sabem fazer filmes para os fãs de qualquer coisa, ou neste caso, fãs do Homem-Aranha, desde referências a filmes anteriores do personagem até à homenagem a Stan Lee e Steve Ditko. É muito bom, e seria fantástico, só que pouco provável, que este filme roubasse todos os prémios de animação que a Disney normalmente ganha nesta altura do ano.